Debalde, sobre mim, na sua graça divina,
Almas puras, abrindo a plumagem das asas,
Com o ardor que nenhuma angustia contamina,

Espalham no meu lar como um calor de brasas…
—Para fundir de todo esta geada tão densa,
Só tu, meu claro Sol, que até d'inverno abrasas!

Vento frio, que vaes da minha noite immensa,
Tenebroso e a rugir!—leva a minha Saudade,
Como uma estrella a arder, na tua asa suspensa!

Quando essa luz passar, com que magua não ha de
Reflecti-la o meu rio, e acariciá-la, vendo
Que vae dos olhos meus a tenue claridade!

Mas então, Rio amado, as tuas aguas descendo
Nessa luz reflectida, a tremer como um luar,
Todo o passado irei nas tuas margens revendo,

E o coração talvez se esqueça de chorar,
Como nauta que a voz de Loreley enleva,
E para a morte vae nesse enlevo a cantar…

Vento surdo, que vaes a galopar na treva!
Pára um momento! Escuta a minha voz clamante
Vê como soffro, e ao longe esta Saudade leva!»

Mas o Vento não ouve o meu grito alarmante!
Ai de mim, que sou eu?! pobre louco exilado,
De toda a parte vendo o meu país distante,
Como se lá tivesse os meus olhos deixado!

GOTA DE AGUA

À memoria de Antonio Rodrigues Braga