HYMNO Á VIDA

A Agostinho de Campos

HYMNO Á VIDA

Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga
Preso a ti, como o feto ao seio em que germina…
Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga,
Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?

Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio,
Quem quer que sejas,—flôr d'inefavel deleite,
D'ódio ou de fel,—és sempre o mesmo augusto seio
Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!

Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho!
—Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,—
Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho,
O vinho e a embriaguez da primeira revolta!

Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes,
Na immarcessivel luz que os orbes incendeia;
Passas no largo vento a derramar perfumes,
Choras no vasto oceano a rebentar na areia!

O teu Genio, que o barro amolda e purifica,
Enleva os corações de jubilo e transporte,
Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica,
Se em Belleza sorri na máscara da Morte:

Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve,
Mais obscuro se faz quanto mais o investigo;
—Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve,
Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!

Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem,
O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça,
Da treva apenas sae, dissipada a vertigem,
Um immenso clamor que blasphema e soluça!