És o raio de sol, a tempestade e o vento;
Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada;
Ancia no coração, lava no pensamento,
O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,—és Tudo e és Nada!

Mão potente, que a rocha endurecida escarva,
Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores;
Fada occulta que tece o casulo da larva
E aos insectos iria as asas de esplendores…

Beijo d'onde a traição como um veneno escorre;
Riso que se desfaz num amargo travor;
Larga estrada sem fim que a Ventura percorre,
Como um cego a cantar pelo braço da Dor!

Quem quer que sejas,—tudo ou nada,—eu te bemdigo!
Pelo esforço immortal da tua heroica belleza,
Que, no revolto chão do soffrimento antigo,
Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!

Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse,
Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos,
A onda humana através da historia se lançasse,
Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!

Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo!
Occulto coração, graça, illusão suprema!
Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo,
—A solução que importa? O que é grande é o problema!…

HYMNO Á BELLEZA

A Eugenio de Castro

HYMNO Á BELLEZA

Onde quer que o fulgor da tua gloria appareça,
—Obra de genio, flôr d'heroismo ou sanctidade,—
Da Gioconda immortal na radiosa cabeça,
Num acto de grandeza augusta ou de bondade,