Ao Padre João Ignacio de Araujo Lima

Vive ut vis, sed cum aegrotabis
Justis lachrymis damnabis
Omnes mundi insulas.
O beata solitudo,
O sola beatitudo,
Piis secessicolis!

Cornelius, Martyr.

HYMNO Á SOLIDÃO

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existencias povoam:
Imagens, concepções, formas do sentimento,
—Sonhos puros que nelle em belleza revoam
E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo chão onde se esconde e medra
A semente que vae germinar na Palavra,
Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso creador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um Deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que elle se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou,
E em cuja creação o seu sangue palpita,
Que não ha Deus estranho aos orbes que formou.