Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades
Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora…
O passado e o porvir são ancias e saudades:
Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não attinge,
Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge,
E o seu mystério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, innundando essa penumbra dôce,
De não sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanação d'um ser divino fôsse,
Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pára alguem para ouvir um coração que bate?
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
Vê o mundo que nelle em ancias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella,
Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo…

E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura,
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
Como das mãos do artista, animando a esculptura,
O mármore recebe a sua alma—a Belleza.

Se soffrer é pensar, na paz do isolamento,
Como d'um calix cheio o liquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio,
Á superficie nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério
Se conhece a riqueza accumulada nella.

Corações que a Existencia em tumulto arrebata!
Esse oiro só se extrae do minério candente,
No silencio, na paz, na quietação abstracta,
Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente…

HYMNO Á MORTE