Meorum amicorumque pié manibus
HYMNO Á MORTE
Meorum amicorumque pié manibus.
Tenho ás vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus labios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.
Nunca, espanto ou receio, ao meu animo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mãos erguendo a inexoravel Fouce
E a ampulheta em que vaes pulverizando as horas.
Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
Tão proxima de mim que te respiro o alento,
—Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
E a arrastar-me comtigo ao teu leito sangrento…
Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, d'onde esplendida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.
A Alma volta á Luz; sae d'esse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu animo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis de terra!
Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!…
A Morte, que sem dó me tortura e suffoca,
É outra,—essa que em nós cava sulcos de dores.
Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas affeições.
E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.