Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer, é ter vivido, é renascer… O horror
Da Morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.
Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça,
—Somos nós que a sua morte implacavel soffremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
Só então, da tua asa a sombra formidavel,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondavel,
Noite de soledade em que nunca amanhece…
Só então, succumbindo á dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa não é d'um Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!
Inflexivel e cego, o poder do teu sceptro
Só então me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza elle faz um espectro
D'alguem, que ha pouco ainda, ao pé de nós sorria.
Mas se n'essa tortura, exhausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contricto,
Passa deante de mim, como um deslumbramento,
Constellando o teu manto, a visão do Infinito.
E de novo, ao sair d'essa angustia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Euthanasia serena em cujo olhar clemente
Arde a chamma em que toda a escoria se depura.
É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a Alma se liberta, e d'esplendor vestida
—Borboleta celeste, ébria de Deus,—s'eleva
Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!