Só, na noite profunda e num amplo deserto,
Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça,
—Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,—
Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça.

E absorto nessa luz que do alto cahia,
Como um pressentimento augusto a illuminá-lo,
Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia:
—«Eis o Deus verdadeiro!»—e prostrou-se a adorá-lo.

Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua,
Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro;
E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua:
—«Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!»

E outra vez, como chuva em calcinada areia,
A paz, ao seu turbado espirito baixara;
Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia,
Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.

Mas a Lua descreve a orbita marcada
E some-se ao primeiro esplendor do arrebol;
Borda todo o horizonte uma fimbria doirada,
E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.

Como o homem que sae d'um longinquo desterro,
E de subito encontra o lar e encontra os seus,
Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro,
E de joelhos proclama:—«Eis o unico Deus!»—

Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros,
Perdido na abstracção do seu culto fervente,
Quando os olhos ergueu já luziam os astros,
E do Sol mal se via um clarão no occidente.

Então, no seu assombro, o espirito perplexo,
Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu
Viu em tudo o que existe apenas o reflexo
D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu…

PRINCESA ENCANTADA

A Alfredo da Cunha