De resto, em todos os versos que já lemos do novo livro, é o mesmo estilo magnificente das producções de outr'ora, mas dexterisado com um maravilhoso, consummado bom-gosto; é essa mesma amplitude harmoniosissima e limpidez diamantina, o admiravel senso musical, a riqueza larga de fantasia, e aquella fidalga probidade artistica, o esmero, a esplendida perfeição de executante, que fizeram de Antonio Feijó um dos mais elevados representantes da nossa poesia contemporanea.
Em remate, da Ilha dos Amores, trasladamos para a valla do noticiario esta divina lirica:
IGNEZ
Na tua bôca macerada
Por tantos beijos mercenarios que soffreste,
Meu labio achou ainda a candura sagrada
Que da avidez das outras bôcas escondeste…
E no teu peito exhausto, onde em tumulto ouviste
Tantas paixões rolar,
A minh'alma escutou, num eco amargo e triste,
A primeira innocencia em segredo a chorar!
A chorar em segredo a pureza da infancia,
A candura perdida,
De que eu sentia ainda a ultima fragrancia
A evolar-se de ti, como d'urna partida.
Pobre flôr torturada! O teu doce perfume
Foi delicia e veneno…
Pairava o teu Amor como num alto cume:
Só podia attingi-lo o meu beijo sereno!
Todo o teu ser vibrou como uma flor ao vento,
Tremeu, desfalleceu…
E a tua alma, esquecendo o seu longo tormento,
Num sorriso de gloria á tua bôca ascendeu!
Vinha cheia de graça e candura ineffavel,
D'innocencia e de pejo,
Que eu fiquei a scismar se esse beijo insondavel
Seria porventura o teu primeiro beijo!…
Primeiro de Janeiro, de 28 de Maio de 1897.