Continuou neste tom ainda algum tempo. Ouvindo-o sem poder interrompê-lo, com o coração a desfazer-lhe o peito, a mãe era forçada a perceber que aquele desgraçado que ali tinha, guardado nos seus braços outra vez, precisava mais de si que em pequenino, porque Deus lhe tirara o entendimento.

Quando êle lhe contava as suas noites, como na rua a polícia o perseguia, o que havia na nèvoa, a certas horas,—interrompeu-se bruscamente e ainda mais baixo, transido de pavor, colado a ela, pediu-lhe que fôsse ver ao patamar... tinha ouvido passos... era alguêm... Para o tranquilizar, ela fechou a porta à chave, com os olhos rasos, a conter-se, e pôs-se então a ver se o adormecia.{182}

—O que precisas, Manoel, é de dormir, tens mesmo os teus olhos a fechar-se...

Êle não queria dormir. Era impossível. Podia vir o Sousa... alguêm prendê-lo... Só se ela ficasse ao lado, de vigia.

—Eu fico, eu fico ao pé de ti. Sossega. Despiu-o então como em pequeno. Tirava-lhe a roupa devagar, ia-o beijando com meiguice, em despedida: e deitou-o por fim sem resistência, como se fôsse uma criança sonolenta. Aconchegou-lhe o cobertor bem contra os hombros—tão magrinho, Senhor, um esqueleto!—e à beira da cama, de joelhos, sentindo-o adormecer, ia dizendo:

—Dorme, meu filho. Dorme... dorme... dorme...

Quando o sentiu adormecido, ergueu-se.

—E agora?!... perguntou no quarto escuro. O filho doido... a morte em tôrno dela... e ninguêm, ninguêm que lhe valesse...

Lá fora a manhã subia, com pregões. Mas neste quarto, para a pobre velha, o silêncio era doloroso como um uivo.{183}

Meses depois, encontrei-o uma manhã em Nevogilde, sob um grande castanheiro a desfolhar-se.