—A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quási sempre.
—A humildade corresponde no homem ao mimetismo dos insectos.
—Certas preferências—que nem o raciocínio nem a estesia explicam—despertam{209} em nós sensações de vidas anteriores: um certo perfume, uma paisagem p'ra outros sem encanto, certa feia, uns versos medíocres, um acorde banal...
—Recusei ontem uma apresentação a um «homem de princípios». P'ra quê? Um «homem de princípios» é um homem conhecido: está impresso.
—Música do mar—Aquele violinista meu amigo foi viver, por conselho meu, p'rà beira mar. Ia com uma grande febre de compor. Levava um quarteto inacabado, um esbôço de sinfonia, outros projectos... Encontrei-o na praia ontem à noite.—Então... êsse quarteto? a sinfonia?...—Nem quarteto... nem sinfonia... nem violino... Eu já não faço música. Pus-me a ouvir a do mar bem simplesmente.
—A moral é um lastro. Deita-se fora p'ra subir...{210}
—Todos dizem adeus com o mesmo gesto. E êsse gesto é o das asas... Subir é ficar só.
—Quando duas criaturas se amam, não pensam um instante em compreender-se. Uma vaga de inconsciente submergiu-as. Só mais tarde, morto o desejo, se reconhecem com espanto, dois estranhos.
Dizem com desespero: «Um de nós mudou. Já não somos os mesmos».
—De uma maneira geral, temos mais pontos de contacto com os nossos inimigos do que com os nossos amigos.