O Senhor, cuja Lei é sempre justa,
Deu-me uma infortunada mocidade,
Talvez para eu saber (o que é verdade)
Quanto é bom ser feliz, mas quanto custa!
Feliz de quem no mundo sem piedade,
Encontrou alma que lhe entenda a sua,
Que o mesmo é que ter na mão a Lua
Tão longe n'essa triste Eternidade!
Os meus dias passavam tristemente
Quando encontrei o teu olhar ridente:
Foi a bençam de luz da Mãe de Deus!
Vaes deixar-me de novo, só na vida!
Ao cabo de viagem tão comprida
Talvez sintas mais perto os olhos meus!

Ilha da Madeira, janeiro de 1899.

23

Adeus a Constança

Vae o teu Pae andar ao sol de verão,
E mais á chuva e ao vento; e só depois
Poderá ter a colheita d'esse pão
Que semeou cantando ao pé dos bois.
Feliz que eu fui em te encontrar na vida,
Minha dôce Constança desejada!
Antes de vêr-te a ti não via nada,
Nem para mim a lua era nascida.
Tu vaes partir em breve com teu Pae
Por esse mar que tão piedozo está.
Não sêde amargas, ondas, mas chorae!
Vaes vêr campos em flôr que te conhecem...
E se a colheita se fizesse já,
Talvez na volta as ondas te trouxessem!

Ilha da Madeira, 1899.

24

Antes de partir

Varios Poetas vieram á Madeira
(Pela fama que tem) a ares do Mar:
Uns p'ra, breve, voltarem á lareira,
Outros, ai d'elles! para aqui ficar.
Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,
Morrer n'esta ilha não deve custar,
Mas para mim sempre é terra extrangeira,
Á minha patria quero, emfim, voltar.
Ilhas amadas! Ceu cheio de luas!
Ah como é triste andar por essas ruas,
Pallido, de olhos grandes, a tossir!
Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vêl-as,
Vou com as ondas, voltarei com ellas,
Mas como ellas p'ra tornar a ir!

Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.