Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

Leça, 1885.

*Os Cavalleiros*

—Onde vaes tu, cavalleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'elle a ventar…
Não responde o cavalleiro,
Que vae absorto a scismar.
—Onde vaes tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
Vaes bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
—Vaes levar uma mensagem?
Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
Irás em meia viagem
E eu já de volta hei-de estar.
E o cavalleiro, á passagem,
Faz as arvores vergar.
—Vaes escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t'o a escalar:
Não ha no mundo pedreiro
Que a mim se possa egualar!
Não responde o cavalleiro
E o vento torna a fallar:
—Dize, dize! vaes p'ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
Não ha cavallo na Terra
Que tenha tão bom andar…
E os trovões rolam na serra
Como vagas a arrolar!
—E as guerras has-de ganhal-as,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me á frente das balas
Para a força lhes tirar!
E as arvores formam alas
Para os guerreiros passar.
—Vaes guiar as caravellas
Por sobre as agoas do mar?
Guiarei as tuas velas
Á feição hei-de assoprar.
E os astros vêm ás janellas
E a lua vem espreitar…
—Onde vaes na galopada,
Á tua infancia, ao teu lar?
Conheço a tua pousada:
Já lá tenho ido ficar.
E vae longe a trovoada,
Vae de todo a alliviar.
—Vaes ver tua velha tia,
Na roca de oiro a fiar?
Loiro linho que ella fia,
Ajudei-lh'o eu a seccar!
E o luar é a Virgem Maria…
Que lindo vae o luar!
—Vaes ver a tua mãesinha?
Coitada! vi-a expirar:
Tinha a alma tão levezinha,
Que voou sem eu lhe tocar!…
E o cavalleiro caminha,
Caminha sem se importar!
—Vaes ver tua irmã? Ao peito
Traz um menino a criar:
Ai com que bom, lindo geito
Ella o sabe acalentar!
E o vento embala no peito
Uma nuvem, p'ra imitar!
—Onde vaes tu? Aonde, aonde?
Phantasma! vaes-te cazar?
Eu sei da filha d'um conde
Que por ti vive a penar…
E o phantasma não responde,
Sempre, sempre, sempre a andar!
—Vaes á cata da Ventura
Que anda os homens a tentar?
(Ai d'aquelle que a procura
Que eu nunca a pude encontrar…)
N'isto, pára a criatura,
Faz seu cavallo estacar:
—Vento, sim! Espera, espera!
Que estrada devo tomar?
(É um menino, é uma chymera
E todo lhe ri o olhar…)
E o vento, com voz austera,
Dor, querendo disfarçar:
—Toma todas as estradas
Todas, áquem e além-mar:
Serão inuteis jornadas,
Nunca lá has-de chegar…
Palavras foram facadas
Que é vel-o, todo a sangrar…
E seus cabellos trigueiros
Começam de branquiar,
E olham-se os dois cavalleiros…
Quedam-se ambos a scismar.
Brilha o Oriente entre os pinheiros,
Ouvem-se os gallos cantar…
—Adeus, adeus! Nasce a aurora,
Adeus! vamos trabalhar!
Adeus, adeus! vou-me embora:
Chamaram-me as velas, no mar…
E o vento vae por hi fóra,
No seu cavallo, a ventar…

Pariz, 1891.

*Purinha*

O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Sr. Padre me dará p'ra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: Sim!
Ha-de ser alta como a Torre de David,
Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
E negro como a capa das viuvas…
(Á maneira o trará das virgens de Belem
Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
E será uma espada a sua mão,
E branca como a neve do Marão,
E seus dedos serão como punhaes,
Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
E os seus seios serão como dois ninhos,
E seus sonhos serão os passarinhos,
E será sua bocca uma romã,
Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
Como um sonho, como a neve,
Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
E ha-de ser natural como as hervas dos montes
E as rolas das serras e as agoas das fontes…
E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
Mais pura, mais simples, que moça e menina.
Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
E os rios ao passar hão-de cantal-a.
Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
Mais a farinha do moleiro e a violeta,
E a lua para mim será como uma preta!

Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
E a minha fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!