Hoje, mais nada tenho que esta
Vida claustral, bacharelatica, funesta,
N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
Bem me dizias tu, como que adivinhando
O que isto para mim seria, Amigo, quando
O anno passado, vim contra tua vontade
Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
«Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim.
Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
Que optimas prelecções as prelecções modernas,
Cheias de observação e verdades eternas,
Que faz diariamente o Proff. Oceano!
Já tinha dado todo o Coraçao Humano,
Manoel! faltava um anno só para acabar
Meu curso de Psychologia com o Mar.
Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
Talvez… preguiça, eu sei… A cabra é a cotovia:
As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
Era a distancia, o além, que me impressionava:
Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…)
Tudo rolou no solo! A Tasca das Camellas
Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
Por 6 e 5! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
Tia Camella… só ficou a camelice.

Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
Que extraordinarias e medievas raparigas!
E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
Manoel! tão lindas são…»

Que pena que não ouças!

Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

Olha… São os Geraes, no intervallo das aulas.
Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
Dos navegantes do seculo XVI?
Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
E magros! tristes! de cabeça derreiada!
Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
—E os doutores?—Ahi, os tens graves, á porta.
Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa?
Ha duas excepções: o mais, são todos um,
Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum…
Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
Penedo!
Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
Mal diria eu em pequenito, quando a ama
Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
Que eras tu o Papão! A ama, de olhos em fogo,
Imitava-te o andar, que não era bem de homem…
Eu tinha birras?—Ahi vem o lobishomem!
Dizia ella.—Bate á porta! Truz! truz! truz!
E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
E eternamente, para espanto de vindoiros:
No rotulo porei: Alli-Bed, Rei dos Moiros.

Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora!
Saiamos…
Manoel, vamos por ahi fóra
Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
Por esses lindos, deliciozos arredores,
Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
Santos Logares, onde jaz meu coração!
Cada um é para mim uma recordação…

Condeixa?

Vamos ao arraial que, alli, ha.
—Sol, poeira, tanta gente!—É o mesmo, vamos lá!