Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
E sabemos das leis…» O que devem fazer
Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
Que estraga as plantações!—Que hão-de fazer? Bebel-as!
E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos…
Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

Tentugal?

Que manhã! E não quereres vir…
Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
É logo alli: quinze kilometros, é perto.
Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
Uma colonia de phtysicos, a ares!…
Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
Ver-vos-ei, la, um dia, onde se encontra tudo:
A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
Á natureza e o sol a semear Justiça!
Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
Mas o trem voa á desfilada…—Olá! arreda!
(Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
E assim n'este galope, a charrette rodando,
Já de Tentugal se vae quazi approximando:
S. João do Campo já nos fica muito atraz…
Assim, Malhado! puxa! Bravo, meu rapaz!
Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
Emfim!

Tentugal toda a rir de cazas brancas!

A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
E contrariado vou de todas essas vezes.
Venho ao convento vizitar a linda freira,
Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
Tem de recheio o coração da minha amada.
Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…—Traz?—Não!

Regresso a Coimbra só com o meu coração.

Coimbra, 1888-1889-1890.

*Para As Raparigas de Coimbra*

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