Ó fogueiras, ó cantigas,
Saudades! recordações!
Bailae, bailae, raparigas!
Batei, batei, corações!
Coimbra, 1890.
*Luzitania no Bairro-Latino*
Só!
Ai do Luziada, coitado,
Que não tem mãe, nem tem avó,
Que não ama, nem é amado…
Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
Que triste foi o seu fado!
Antes fosse p'ra soldado,
Antes fosse p'ro Brazil…
Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que S. Silvestre fazia andar…
Formozas cabras, muito pequeninas,
Loiras vaquinhas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
Meus bibes eram da sua lã…
Antonio era o pastor d'esse rebanho:
Com ellas ia para os montes, a pastar.
E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
E o pasto d'ellas era o meu jantar…
E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
Passava a noite, passava o dia
Com essas boas irmãzinhas
A quem só mingoava a falla
Para serem perfeitas criaturinhas…
E quando na Igreja das Alvas Saudades
Que era da minha Torre a freguezia,
Batiam as Trindades,
Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava Ave-Maria…
E as doces ovelhinhas imitavam-me.
Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite…
Um dia, os castellos cairam do Ar!
As oliveiras seccaram,
Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
Sairam-me os ladrões, só me deixaram
As velas do moinho… mas rôtas e velhas!
Que triste fado!
Antes fosse aleijadinho,
Antes doido, antes cego…
Ai do Luziada, coitado!