Veio da terra, mail-o seu moinho:
Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
É negra a sua farinha!
Orae por elle! tende pena!
Pobre Moleiro da Saudade…
Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanarios, ó luas cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que cegas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando…
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de Julho, poentes mineraes,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!
Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?
Ó padeirinhas a amassar o pão,
Velhinhas na roca a fiar,
Cabello todo em caracoes!
Pescadores a pescar
Com a linha cheia de anzoes!
Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
Ó boi negro entre as capas vermelhas!
Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
Ó romaria do Senhor do Viandante!
Procissões com muzica e anjinhos!
Srs. Abbades d'Amarante,
Com trez ninhadas de sobrinhos!
Onde estaes? onde estaes?
Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
Cidade triste agazalhada entre choupaes!
Ó dobres dos poentes, ás Ave-Marias!
Ó Cabo do Mundo! Moreira da Maia!
Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
Fortalezas de Lipp! ó fosso do Castello,
Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
Onde se enroscam como espozos as lagartas!
Sr. Governador a podar as rozeiras!
Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!
Que é feito de vós?
Fallaveis aos barcos que andavam, la fora,
Pelo porta-voz…
Arrabalde, maritimo da França,
Conta-me a historia da Princeza Magalona,
E do Senhor de Calais,
Mais o naufragio do vapor Perseverança,
Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
Ó pharolim da Barra, lindo, de bandeiras,
Para os vapores a fazer signaes!
Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
Diccionario magnifico de cores!
Alvas espumas, espumando a fragua,
Ou rebentando, á noite, como flores!
Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
Cheias de brigues como pinhaes…
Morenos mareantes, trigueiros pastores!
Onde estaes, onde estaes?
Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
Cuja Abbadessa secular é a Lua
E cujo Padre-capellão é o Vento…
Agoa salgada d'esses verdes poços,
Que nenhum balde, por maior, escua!
Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!
Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
Noiva cadaver ainda com véu…
Ossadas ainda com os mesmos fatos!
Cabeça roxa ainda de chapéu!
Pés de defunto que ainda traz sapatos!
Boquinha linda que já não canta…
Boccas abertas que ainda soltam ais!
Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!
Onde estaes, onde estaes?