Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.
Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas! Pão de ló de Margaride! Agoinha fresca da Moirama! Vinho verde a escorrer da vide!
Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
E uma netinha com um ramo de loireiro
Enxota as moscas, do moribundo…
Dança de roda mail-as moças o coveiro.
Clama um ceguinho:
«Não ha maior desgraça n'esta vida,
Que ser ceguinho!»
Outro, moreno, mostra uma perna partida!
Mas fede tanto, coitadinho…
Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
Labareda de cancros em fogueira,
Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
Ó Georges, ve! que excepcional cravina…
Que lindos cravos para por na botoeira!
Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
Tragicos, uivam «uma esmola plas alminhas
Das suas obrigações!»
Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…
Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
Onde estão elles que não vêm pintar!
Pariz, 1890-1891.
*Os Figos Pretos*