Tira o chapéu, silencio!
Passa a procissão.
Estralejam foguetes e morteiros.
Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
Honestos e morenos cavalheiros.
Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
Parecem Torres de David, na amplidão!
Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!
Os anjinhos!
Vêm a suar:
Infantes de trez annos, coitadinhos!
Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
Que elles mal sabem andar…
Esta que passa é a Noite cheia de astros!
(Assim estava, em certo dia, na Judeia)
Aquelle é o Sol! (Que bom o sol de olhos pintados!)
E aquella outra é a Lua-Cheia!
Seus doces olhos fazem luar…
Essa, acolá, leva na mão os Dados,
Mas perde tudo se vae jogar.
E esta que passa, toda de arminhos,
(Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
Leva, sorrindo a Coroa dos Espinhos,
Flor de criança que os não tem.
E que bonita vae a Esponja de Fel!
Mal ella sabe, a innocentinha…
Nas suas mãos a Esponja deita mel:
Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
Lá vem a Lança! A bainha
Traz ainda o sangue da Sexta-feira…
Jezus!
Que maravilha de criança!
O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…
Passa o ultimo, o Sudario!
O corpo de Jezus, Nosso Senhor…
Parece o sol-por!
E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
É o Oceano Atlantico!
O bom povinho de fato novo,
Nas violas de arame soluça, romantico,
Fadinhos chorozos da su'alma beata.
Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.
Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
Como a velha cabeça aureolada de Deus!