Triste, acompanha-a um Terra-Nova
Que, dentro em pouco, á fria cova
A irá de vez acompanhar…
O chão desnuda com cautella,
Que Boy conhece o estado d'ella:
Quando ella tosse, poe-se a uivar!
E, assim, sósinha com a aia,
Ao sol, se assenta sobre a praia,
Entre os bébés, que é o seu logar…
E o Oceano, tremulo avôzinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vem ter com ella a conversar…
Fallam de sonhos, de anjos, e elle
Falla d'amor, falla d'aquelle
Que tanto e tanto a faz penar…
E o coração parte-se todo,
Quando a sorrir, com tão bom modo,
O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»
Sarar? Mizerrima esperança!
Padres! ungi essa criança,
Podeis sua alma encommendar:
Corpinho d'anjo, casto e inerme,
Vae ser amada pelo Verme:
O bichos vão-na desfructar…
Sarar? Da cor dos alvos linhos,
Parecem fuzos seus dedinhos,
Seu corpo é roca de fiar…
E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
Eu julgo ouvir n'uma officina
Taboas do seu caixão pregar!
Sarar? Magrita como o junco,
O seu nariz (que é grego e adunco)
Começa aos poucos de afilar,
Seus olhos lançam igneas chammas…
Ó pobre mãe, que tanto a amas,
Cautella! O outomno está a chegar…
Leça, 1889.
*A Poezia do Outomno*
Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!
Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!