Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes…
Aonde irá ella? Quem irá buscar?

Pariz, 1891.

*Males de Anto*

A Ares n'uma aldeia

Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
Comia terra, embebedava-me com luz!
Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
(Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.

Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
Sentia renascer minha antiga bondade
N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
A minha bolsa pequenina, de estudante,
Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar…
E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
Costumava esconder-me em uma certa rocha,
Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!

Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
Que as tem maiores este filho de seus Paes!
Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!

Meu pobre coração toda a noite gemia
Como n'um hospital…

Entrae na enfermaria!

Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
Ó mornos vagalhões do coração humano,
Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!…
Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
A que horas é a baixamar, quem vos escua?
Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…)
A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!