Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
De coleras! Horror…
Deixei fugir a escota,
Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!…
Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
Da minha vingança! ó Ophelias do perdão…
(Socega! Faze por dormir, meu coração!
Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias!
Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
O mundo jovial de guarda-sol aberto!
Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
E reis e generaes envoltos nas mortalhas!…
P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
Homens! criae outro systema de algarismos!
Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta…
Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me…
Um lenço branco Adeus! nos longes, a acenar-me:
Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite
Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos Alguens…
Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios
Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
De amor mystico! Amar freiras de habito branco
Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
Sob relampagos!…
Jezus! Jezus! Jezus!
Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
Quando os soes-postos são uma delicia, quando
Os aldeões andam a podar, cantarolando,
E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
Ceifam curvadas, como na haste as violetas!
Medico? Para que… A doença era d'alma.
Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
Tomava quazi sempre a estrada dos Malheiros.
A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
Onde perpassam os aldeões na caminhada
E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
Ora havia, lá (e ha ainda) umas Alminhas
Com um painel antigo sob um oratorio,
Que são as almas a penar no Purgatorio.
E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…
E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
Deita uma pedra: cada pedra é uma oração…
Oh raras orações, que nunca findam, não!
Perpetuamente, lá ficam os Padre-Nossos,
Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!…
Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
Dizendo para mim: «se me matasse alguem…»
Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
E ninguem me matava…
Ah! vinham a essa hora
As moças da lavoira a cantar, a cantar,
(Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…)
Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
Paravam de cantar e ficavam-me olhando…
E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»
Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
Que ia o cantaro encher á Fonte do Salgueiro,
Lindos cabellos empoeirados de farinha:
Era uma flor, mas parecia uma velhinha…
—Vae melhorzinho?—Assim… vou indo, vou melhor…
—Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…
E um pouco mais além, no logar do Cazal,
N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
«Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
É que chama a attenção para a sua desgraça!