E, para bem coroar o meu tragico fado,
Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
«Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
E, grave, para si:
«A Sciencia abandonou-te!»

Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
Em tudo via a Velha, em tudo via a Morte:
Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova…
Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
E ao ver as terras estrumadas, como lume,
Quedava-me a scismar no meu destino… estrume!
A pomba que passava era a minha alma a voar…
E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
Pensava… se estaria, alli, o meu lençol…
E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
A tiracollo a cerra, o martello e o formão…
Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…

Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!

A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho…
Quando na ermida dão Trindades, de mansinho,
E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre…
Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
(Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
Quando para beber me debrucei na pia,
No fundo d'agoa, vi uma photographia…
Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!

Fugi!

E, desde então, não mais sai de caza.
Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio…
E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio…
Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!

Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
E já me resignei… Mas Carlota, esse amor,
Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
N'estas trez legoas, o Dr. da Preza Velha.
Eil-o que chega…
—Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
Toma-me o pulso…—Está bem, isso não é nada,
Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
E, sobretudo, veja lá… nada de versos…
Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
Tysica d'Alma. Emfim…

Ó Carlota! ó Carlota!
Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
Já estaria bom, se me valessem rezas.
E, no Oratorio, tem duas velas accezas
Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
E sei, até, que prometteu uma novena,
Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena!
E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
Com as iniciaes do meu nome em canella,
E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
Quando me sinto pior, ao bater das Trindades,
E me appetece comer terra, algumas vezes
(Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…»
E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
E com um mimo que só sabe ter uma ama
Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
E não se vae deitar…

Onde ha, assim, uma avó?

A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
Trez legoas em redor manda saber de mim.
(Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
—Quem é?… E, então, olhae!