«É o Sr. Abbade
Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
«Que manda um gigo», mais as senhoras do Rôfo
Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
«Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
Mais o Sr. Doutor de Linhares «que manda
Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
Mais «o da Igreja que offerece a codorniz
Que matou, hoje, na Tapada de D. Luiz»;
Mais o Sr. Miguel das Alminhas de Pulpa
«Que manda este peru e que pede desculpa»;
E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos
Mandam tambem saber «como vae o menino…»
E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
Na noite a badalar as suas badaladas!
Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:

—Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero…
Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar…
Em pequenino era tão bom de aturar…
E depois era tão alegre, tão esperto!
E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
E tosse tanta vez! já arqueia das costas…
Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
E elle é tão bom, tem tão bons modos…
—Coitadinho!
—Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
E que se poe assim a esticar, a esticar?
Assim é o meu menino…
—Ó S.^{ra} Carlota,
E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu…
—Nunca foi assim: foi depois que se metteu
A fumar, a beber e lá com as po'sias.
Aquillo para mim foram as companhias.
Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
E nunca ia á licção, ficava sempre mal
Nos seus exames, escrevia no jornal;
E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
Com medo de o affligir… mas depois, quando estava
Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava.
—O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
Lá dos estudos, de Coimbra…
—Antes fosse
Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei…
—Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei…
—S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
Depois, está aqui, está quazi formado…

Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço
E vae por hi fóra, por todas essas salas,
A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
(Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar!
E quando foi para chamar o cirurgião?
Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…

Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
E as velas accendia á Senhora das Dores,
(Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
E uiva-lhe, assim:
«Antes as tuas sete espadas!»

E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.

Coimbra, 1890.

Pariz, 1891.

*Ah Deixem-me Dormir!*

O Poeta