Naquela walsa que dansamos, lenta e linda,
Num baile onde, ao acaso, um dia te encontrei,
Sem qu'rer, fiz-te chorar. Eu lembro-me ainda!
Foi toda a minha vida… a walsa que dansei!

Senti a tua alma entrar dentro da minha;
E ouvi teu coração falar muito baixinho.
E ainda pressenti que a tua alma tinha
Anceios de contar soluços de carinho.

Sentindo as tuas mãos nas minhas a queimar,
Eu disse-te orações… e ouvi-te murmurar
Palavras que de cór meu peito diz ainda!

Vejo-te assim; juntinha a mim, d'olhos fechados…
Eu sinto que nós dois andamos abraçados,
Dansando devagar, aquela walsa linda!

1916

+Fria+

Qu'importa o teu olhar sêja tão lindo,
E tenha a côr da luz que tem o dia?
Qu'importa o teu sorriso doce, infindo,
Se és fria, como a pedra, fria, fria!

Qu'importa esse teu corpo, se não sente!?
A alvura do teu colo sempre a arfar,
Se não tem o calor que dá á gente,
A força p'ra viver e para amar?!

Amor, no teu olhar eu tenho lido aos poucos,
Anceios exquisitos, sonhos loucos…
E és fria como a louza em cemiterio!

Envolta nesse manto de Beleza,
Quando olho dos teus olhos a frieza,
Eu quedo-me a scismar nesse misterio!