MARIA erguendo o braço:
Vês pairando sobre ti
O Remorso, o fantasma eterno!...
JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e apontando tambem, trémulo, allucinado:
Ali! ali!
Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria!
Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia
Que vae falar-me!—Oh! cala-te! Fui eu
Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu!
Não me accuses, que sinto em mim a accusação;
Tem os dentes da cobra e as garras do leão!
Anda aqui dentro—ouviste?—a esfarrapar-me todo!
Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo,
Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome,
Que nem os proprios cães matem comigo a fome!
E apontando de novo, como um vidente:
O respirar opprésso... o corpo no madeiro...
Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro...
Exactamente!—Eléva os olhos para os ceus;
A agonia final chegou: fala com Deus...
A cabeça descae no peito: vae morrer...
E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna:
Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr!
E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante.