Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar:
É puro o teu amor, não é amor vulgar...
Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida,
No centro da minha alma em sangue e dolorída
Existe uma paixão tambem que me envenena,
Podendo ser mortal, assim como a gangrena...

Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a roupagem:

Ah! no supremo arranco um peito esfacelado
Como este, não receia o que haja mais sagrado,
E julga-se capaz, co'o seu valor enorme,
De luctar e vencer o ente mais disforme,
Terrivel como Deus, gigante como Adão,
Possuindo na voz as frases do trovão!
E porque sinto aqui as contorsões finaes,
Espando francamente as máculas brutaes,
Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo:
Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!

Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.

MARIA que não se moveu, serenamente:

Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas;
Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.

JUDAS n'um rugido:

Maria!

MARIA sempre immovel:

Com franqueza, eu disse-te por vezes:Em castidade egual ás innocentes rezes
No Templo do Senhor dadas em sacrificio,
Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio,
Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha
Acrisolado amor, amor... como de filha.
Na terra nada mais preciso que uma coisa:
A Crença.