Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal:
O meu amor longe d'aqui repoisa,
Estrella que não teme as nuvens tempestuosas.
Brando como o dormir das aguas silenciosas,
Vago como o misterio enorme do futuro,
Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro,
Nos espaços do azul vive risonho e inerme.
A estrella é sempre estrella...
Descendo o olhar para Judas:
e o verme é sempre verme.
JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:
Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor,
Fugindo á grande lei do grande Creador,
Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre
Para tornar assim fecundo o estéril ventre!
MARIA sem se perturbar:
Enlouqueceste!
JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto dolorido, n'um queixume:
Mas se eu nunca fui amado!
Assim como o terreno a que não chega o arado,
Semelhante em mudez ás pedras do caminho,
Era o meu coração. Via-me tão sósinho,
Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus,
Interrogava o Espaço, interrogava Deus,
Procurava arrancar ás trevas o motivo
De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.