III
Em mui breves momentos... a cidade
O mais lugubre quadro apresentava.
Os habitantes, cheios d'anciedade
Que tamanho terror lhes inspirava
E de Deus supplicando, em vão, piedade,
Fugiam para a rua, onde reinava
Na triste, apavorada multidão
A mais indiscriptivel confusão.
IV
Abandonando as casas procuravam
Immersos não ficarem nas ruinas:
Mas, aquelles que d'ellas escapavam,
Sob o ferro das gentes assassinas,
Que d'essa confusão se aproveitavam,
Nas ruas saqueando--almas ferinas!--,
Succumbiram;--que o ferro lhes tirava
Vida, que o terremoto respeitava.
V
E, qual mimosa flor desabrochada
Que cuidadoso trata o jardineiro
Por aspero tufão sendo açoutada
Barbaramente, perde a côr e o cheiro,
E sobre a tenra haste já quebrada
Vai definhando, e morre no canteiro;
Assim as creancinhas, que perdidas
Das mães estavam, eram consumidas.
VI
E, como se uma tal desolação
A flagello das gentes não bastasse,
Bandidos houve que com impia mão
E para que o terror se accrescentasse
N'esta já desditosa occasião,
Um incendio atearam que queimasse,
Nas devorantes chammas que nutriam,
As casas que aos abalos resistiam.
VII
Que perversos instinctos, vis, horriveis
Alimentavam peitos tão malvados!...
Esses torpes facinoras, temiveis,
Dos negros calabouços escapados;
Do infortunio ás vozes insensiveis,
Sem dó nem compaixão dos desgraçados,
Que attonitos nas ruas encontravam,
Os mais horrendos crimes practicavam.