«O monumento de Antequera é um monticulo artificial de terra carreada, da qual já as aguas levaram grande parte, e contém um dolmen complicado, com uma só entrada, que a [fig. 57] representa, e corresponde á parte do oriente. Tem interiormente o comprimento de oitenta e seis e meio pés hespanhoes, e vinte e dois de largura na parte onde é mais largo. A sua elevação actual é de dez a dez e meio pés. Consta de trinta e uma pedras, lavradas (labradas) pela face interior e em bruto pela parte opposta, as quaes fórmam as paredes de tres pés de espessura. O fundo ou topo do dolmen é uma só pedra da mesma grossura. Estão enterradas tres ou quatro pés, servindo-lhes a terra de cimento. Cobrem todo o espaço cinco pedras colossaes, apoiadas sobre aquellas que fórmam as paredes lateraes, e tambem em tres grandes pilares, de uma só peça cada um, e lavrados nas quatro faces, erguidos na linha media do vão interior, e dando cada um assento a duas das pedras do tecto. Estes pilares estão enterrados mais de tres pés, e a sua altura total até ao tecto será de quatorze ou quinze pés, com tres de grossura e quatro de largura. Ha mais duas grandes pedras que formam a entrada, e estão descobertas, ignorando-se se sempre assim terão estado. Vêem-se por fim separados a um lado da entrada tres grandes pedaços de pedra que seriam talvez parte d’aquella que falta no dolmen. Os pedregulhos que fazem de paredes estão lavrados a picão grosseiramente pela face, em bruto por detraz, recortados pelos cantos e mettidos na terra de tres a quatro pés.

«As cinco pedras de mesa têem as seguintes dimensões, contando da entrada:

PedrasLarguraComprimentoGrossura
1.ª 16 18 4
2.ª 14¹⁄₂ 21 4
3.ª 12¹⁄₂ 26 4
4.ª 16 27 4¹⁄₂
5.ª 23 27 4¹⁄₂

«Todos estes numeros se referem ao pé hespanhol. A 3.ª pedra está fendida, como se vê na planta. As tres primeiras pedras do tecto estão actualmente descobertas. A qualidade da pedra é de calcareo terciario, porém de grãos mui pequenos, como areia grossa. É mui tenaz e avaliando o pé cubico em quatro arrobas castelhanas, imaginem os leitores como poderiam os homens, sem os apparelhos hoje conhecidos, mover, manejar e collocar tamanhas moles. A pedreira d’onde extrahiram as pedras é o sitio e cerro do Calvario, distante do tumulo mais de mil varas.

«Na collocação das pedras lateraes observa-se que, por detraz das junturas, entre pedra a pedra, está posta com arte uma porção de pedras pequenas formando parede, a fim de que não entre por essas junturas terra ou agua. Os tres pilares, postos para ajudar a suster as pedras do tecto, estão relaxados, por terem cahido parte dos seus calços, e poderiam tirar-se sem perigo nenhum de ruina para o monumento, porque não se apoia nada sobre elles. Fez-se uma excavação no centro da cova por baixo da grande pedra, onde se esperava encontrar ossadas, urnas ou outros objectos, na profundidade de vinte a vinte seis pés, porém nada se descobriu. O mesmo aconteceu n’uma galeria que se fez no fundo e que dá para outro montão de terra existente detraz da cova»[97].

Ha outro monumento congenere na mesma provincia da Andaluzia, a algumas leguas de Antequera, para a parte de oeste, além de Sevilha, a alguma distancia da margem direita do Guadalquivir. Chamam-lhe Cueva de la Pastora. Visitou-a, poucos annos depois de ser por acaso descoberta, D. F. M. Tubino que a descreveu pela fórma seguinte:

«A cova da Pastora é uma galeria artificial com vinte e sete metros de comprimento na parte que até hoje se tem descoberto. A sua largura é de um metro, mal medido, e a maxima altura não passa de dois. Não se desce ao interior sem algum trabalho, pois a entrada está na profundidade de um metro, ao qual se ha de accrescentar a altura da galeria. Esta dirige-se de oriente a occidente, e n’esta ultima direcção deverá ter a entrada. Caminhando pelo subterraneo para oriente, pois da parte opposta se conserva obstruido, chega-se a uma primeira porta ou marco situado a onze metros da abertura. Consta a galeria de dois muros de sustentamento, feitos de pedregulhos sobrepostos, sem especie nenhuma de cimento ou argamassa que os una. O pavimento está coberto de terra, porém cavando até tres ou quatro pollegadas de fundo apparece a pedra, de que realmente é formado. Sobre os muros assentam pedras enormes de natureza granitica ou arenosa, sem vestigios de lavor artificial, com angulos irregulares nas junturas, por onde a habilidade suppriu a arte, pois se fez com que as depressões de uma pedra correspondessem ás saliencias de outra.

«Passada a primeira porta, formada por tres lages de trinta a trinta e dois centimetros de espessura, duas collocadas vertical e a terceira horisontalmente, sobresahindo tanto aos planos normaes da galeria que simulam bastidores ou umbraes, segue-se um espaço de dezeseis metros, que termina n’uma segunda porta, similhante á primeira. Transposta esta passagem, entra-se n’uma camara semi-circular, cujo pavimento fica inferior ao da galeria, e cujas dimensões verticaes tambem são maiores. O diametro d’esta especie de rotunda é de dois metros e sessenta centimetros; a altura não andará longe de tres metros. Observam-se nos muros duas zonas; a inferior de fabrica similhante á da galeria; a superior tem grandes pedras collocadas no sentido ou do seu eixo horisontal, ou do seu eixo vertical, as quaes vão avançando para o centro do circulo até formar um rebordo ou moldura (repisa) contínua, sobre a qual descança outra grande pedra que por si só cobre toda a circumferencia. O pavimento está da mesma sorte coberto por outra pedra assaz espessa»[98].

Perto da entrada artificial da galeria acharam-se, debaixo de uma pedra grande, trinta frechas de bronze. Este facto e as condições architectonicas do monumento que o afastam por extremo dos rudes e grosseiros dolmens, faz crer que teria sido construido já na epoca do bronze. Á mesma epoca deverá pertencer o tumulo de Antequera, no qual o lavrado das faces interiores das pedras que o fórma está egualmente indicando uma epoca menos antiga que a dos dolmens.

O sr. Tubino acha grande similhança entre as plantas, as fórmas e outras particularidades da cova da Pastora e do monumento sepulchral de Mane Nelud de Locmariaker. E por isso julgou que tanto a galeria de Castilleja de Guzman como o megalitho de Antequera seriam monumentos sepulchraes. N’aquelle não se tem até hoje encontrado objectos nenhuns além das mencionadas frechas de bronze[99].