Pantoja

(affirmando mais a sua auctoridade) Saiba, minha amiga, que o acto de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje outro senão o bem d’esta menina?

Evarista

(acobardando-se mais) Bem sei que é assim.

Pantoja

(com effusão) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista?

Evarista

(abatida) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu entendimento.

Pantoja

Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço.