Evarista
Não posso... (Senta-se chorosa e abatida)
Pantoja
É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão profundamente me inspira a mim. (Empregando suavidades de persuasão) Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e pelo meu conselho, governará a congregação... (Com profunda commoção) Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim! (Fica-se como em extase)
Evarista
Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana... Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor, como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem.
Pantoja
Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente, considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava. Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz da morte, eu na tempestuosa provação da vida...
Evarista
E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as monjas dormem o somno eterno.