—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos...
E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, quatro botões com armas reaes, que tinham sido furtados de uma antiga farda meliciana do avô. O filho da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso trocaram. O Tone deu-lhe um melro por todos, por isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata e reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir e para lho’s não cubiçarem com os olhos. Os outros rapazes, com o fim de captarem a confiança do Tone, davam-lhe generosos conselhos:
—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas de vinho—dizia um.
Outro offerecia:
—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? Olha que hão de ter fome...
E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos sujos as mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, que os melros regeitavam.
Um dos rapazes teve esta idéa:
—Sabes o que os passarinhos querem? É beber.
Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um campo de herva. Na superficie da corrente, iam folhas verdes e guiços. As tenras plantas que tinham nascido no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente, à sua passagem. Porém, nos momentos em que a força da corrente era menor, erguiam-se com orgulho, retomando a sua posição habitual. Os rapazes, quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para isso mettiam-lhe o bico na agua, empregando um esforço meticuloso e cuidado. Porém elles, assim, não bebiam bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, disse com voz emphatica:
—É que os melrinhos não sabem como se bebe, meus asnos? Ensinae primeiro aos animaes como se bebe!...