Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim desejado, lembraram-se de imitar, o modo como presumiam que os melros velhos dariam de beber aos seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam o bico de cada passarito entre os beiços. Porém, como d’este modo ainda não bebiam, abriam-lhe de novo as mandibulas á força, e com uma palha molhada na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. Mas este processo era demorado, a paciencia infantil esgotou-se e o Tone, para andar mais rapidamente, metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros, ao qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando depois a choramingar. O Zé possuidor do carro, disse com desconfiança:
—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro que has de vel-o por um canudo!...
Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente com a troca e principiava a pedir outra vez o seu carro e o seu cabrito. O Zé respondeu lhe:
—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno vae pagar!
E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no ar uma cruz de maldição, com a mão em gume, afastando-se com o cabrito e com o carro.
O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, deviam chegar a casa ás horas a que poderia ter terminado a escola. Para se entreterem mais algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte marcou o rei e o fossa—o primeiro e ultimo a atirar á buraca; porque foi este o jogo preferido. Era n’uma encruzilhada de dois caminhos, onde havia um cruzeiro. O Zé do sachristão e os outros maiores, tiravam das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da camisa, as fôrmas... O Tone conservava-se triste, a certa distancia; pois que, antes de principiarem á buraca, já lhe tinham ganho os botões amarellos, á parede. Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar, teve que vender ao Teixugo os melros por duas duzias. Porém, no momento em que estavam verdadeiramente presos n’este entretenimento ambicioso, ouviram uma voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, com uma ironia terrificante:
—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, ein?!
Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, andando á caça! Quando o mestre suppunha que aquelles discipulos o estavam esperando na eira como de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... Os rapazes ao verem-n’o, olharam-se repassados de um terror estupidificante, ficando n’uma coacção espasmodica! Os musculos faciaes permaneceram n’uma regidez tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma insensibilidade apparente, no senhor professor! Porém, quando este se dispunha a descer o muro para os punir a murro, elles seguiram o instincto salvador!... Fugiram, deixando o carro, o cabrito, os melros, as fôrmas e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes gritou de longe, iracundo:
—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos ensinarei. Assim é que se vae á escola?! Ella vos saberá ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos é que o ha de pagar!