Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes o pescoço, metteu-os no bolso, e disse para si, com mais reflexão:
—Sempre servem para um arroz!...
E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, com a espingarda ao hombro.
II
Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido como o rapaz mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe, a elle e aos seus companheiros, todos os casos bulhentos que por ali se davam. De todos os seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão, que tinha ido para o Brazil, e já escrevera muitas cartas. Na ultima fallava palavrosamente, com muitas repetições emphaticas, de largos projectos de fortuna! Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus o ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu pae. Um longo periodo d’essa carta desvirgulada, era destinado especialmente a recommendar muito o pequeno cão, que deixara na aldeia no dia da partida... Tinha-o em grande estimação, lembrava-se todos os dias do Rabicho, desejava encontral-o quando voltasse... Esse animal, magro, aleijado, rijo e bom, representava, para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma dedicação cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com que lhe soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia, em vez de fugir ou de ladrar, rojava-se-lhe aos pés, com o ventre para o ar, os olhos humidos e resignados, ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta... Na manhã de julho, na qual José partira, quando elle, com os olhos rasos de lagrimas, se despedia das mulheres da visinhança, que lhe atacavam os bolsos de fructa; quando, pela ultima vez para muitos annos, olhava para aquellas paredes negras e musgosas da sua aldeia, para os penedos que estavam no alto do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade; quando se despedia dos seus amigos que ficavam... o seu cão, aquelle mesmo que recommendava em todas as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte passos, com uma perna no ar, correndo alegremente, bebendo nos regatos do caminho, voltando atrás para festejar seu dono, com movimentos expressivos de cauda, e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu filho até meia legua fóra da freguezia; porém, o velho, julgando inconveniente esta companhia, escorraçou-o para casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida colera theatral, atirando-lhe pedras, e dizia: «Passa fóra, Rabicho». O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo que era importuno, incommodo, que não devia proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhas tesas, os olhos fixos, n’uma attitude observadora, até que elles desappareceram!... Este rapaz de quatorze annos deixava a sua aldeia e as suas queridas affeições. Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!... Poderia, no contacto do mundo indifferente, perder muitas das intimas recordações da sua terra. Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando, os rapazes que ficavam sentados nas pedras do caminho e a firmeza esperta do seu cão em cima d’aquelle muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar a saudade natural, appareceria decerto aquelle cão, em cima d’aquelle muro, n’uma posição intelligente e nervosa, com sol a illuminal-o fortemente de um lado!... N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de toda a visinhança, designando cada um com o seu nome por extenso e acrescentando-lhe o alcunho. Á senhora Engracia do Repolho, por exemplo, aconselhava a que mandasse o seu Antonio para aquella, affirmando-lhe de um modo cathegorico «que ali é que se ganhava dinheiro e se fazia a gente homem».
O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por tres vezes, toda essa extensa carta, saíu de casa para a levar ao padre Beiral, o mais circumspecto dos ecclesiasticos visinhos!... Era um homem pacato, com algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias de achaques, lembrando-se, sempre que lhe perguntavam pela saude, que vinha a morrer da bexiga, pelo que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando:
—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir para os anjinhos como o João Thomaz!...