LISBOA
DAVID CORAZZI—EDITOR
EMPREZA HORAS ROMANTICAS
Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro
40—Rua da Atalaya—52
1882


ANTONIO FOGUEIRA


I

N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade, teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando uma de cada lado, pela mão, para a residencia! O Thomé Barbante, um tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja, para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho, lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo da orphandade dos filhos de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram adoptarem Tone, visto Deus não os ter favorecido com um rapaz, que tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára, tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de maternidade, que de uma vez chegou a tomar trinta banhos nos tres dias da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia... A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o pequeno... Para a satisfazer, o Repolho não teve remedio senão pedir ao padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente, perguntando com a sua curiosidade de homem idoso:

—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá para os lados de Monção?...

—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. Era muito pobre, não deixou nada...