—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. É uma obra de caridade... Deixal-os ao desamparo, é creal-os para ladrões. Vae homem, vae, leva a egua da côrte...

E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando ao anoitecer a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe peremptoriamente, qual a sua resolução e mais a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. Todas as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, que o pequeno viria a ser bem feliz; porque, estes tios que o adoptavam, eram ricos e não tinham herdeiros necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do mesmo modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando lh’o fizeram comprehender, principiou a berrar desalmadamente, dizendo que não, que não... que não queria ir. E, no momento em que o punham ao collo do Bernardo, que já estava montado, prompto para a partida, principiou a estrebuxar, a morder nos punhos de seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto por seu pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo do albardão. A final, como lhe prometteram que voltaria de tarde, para brincar com sua irmã Quina, que tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se levar. Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante que elle conhecia, e não ao d’aquelle home, que nunca tinha visto. Foi por esse motivo que o padre Carvalhosa teve de emprestar a malhada para o Barbante ir montado, e lá partiram ambos, pelos caminhos ensombrados da freguezia, o Thomé com o pequeno adiante de si, escachado no albardão.

D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. O Barbante, para não ser presentido pelo sobrinho, retirou-se ao amanhecer, quando elle ainda dormia innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças irmãs, que sempre tinham brincado juntas, na mais simpathica convivencia, ficaram vivendo a distancia de leguas, separadas por altas montanhas, que no inverno se costumam cobrir de grossas camadas de geada!

A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha de familiarisar, era de uma sombriedade austera, penetrada de melancolia. É verdade que em baixo, no coração do povoado, havia campos onde os ribeiros sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, e os milharaes alegres. Porém em volta, era uma cinta escura de altas montanhas, com plantações de pinheiros que tem uma côr energica, mas triste, e com arrogantes penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá no alto, onde os penedos se accumulavam toscamente, uns postos sobre os outros, viam-se frequentemente, occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens de um aspecto rude e carregado, com a pelle pergaminhada pelos rigores de todos os tempos, perfuravam pacientemente com as suas brocas, os penedos, que depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso echoava pelas quebradas da montanha!

Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, a vegetação, era mais familiar e intima. Os terrenos mais suavemente accidentados, deixavam aos seus olhos vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um rio largo, que no inverno engrossava arrogantemente com as chuvas copiosas. Dos silvados impenetraveis, povoados de sombras que lhe mettiam medo, costumavam saír inesperadamente, quando elle se aproximava, os melros, voando para longe, com assobios agudos e espantados. A sua memoria tenaz de creança devia possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro da sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre alta, e os tres sinos que tocavam ao domingo! Era a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e onde os primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos dourados dos altares e pelas attitudes senhoris das imagens das santas, se lhe ergueram na imaginação! Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa igreja, collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a cercavam! Áquella imaginação infantil de Tone, deviam fazer falta estas cousas amadas pelos seus olhos vivos e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, não se podia correr doidamente como n’aquelles outros, pelos quaes andara atrás de sua irmã Quina, para a agarrar. Por isso, nos primeiros tempos, fartava-se de chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã e não queria comer. Mas a mulher do Bernardo Repolho affeiçoou-se-lhe imprevistamente e acarinhava-o, procurando consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos, que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para mostrar a effectividade das suas promessas, fez-lhe uma dadiva surprehendente, a qual foi recebida pelo Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz de lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu passado mediocre! Engracia comprou-lhe um pequeno cabrito, de pello lusidio e negro, um pequenino cabrito que fazia , , com uma voz tremida e saudosa, na qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, que deixára na liberdade incondicional das montanhas!

Todos os rapazes da visinhança, que já se davam muito com o Tone, lhe invejaram, desejando-a, a posse d’este animal, e não occultavam que, nos seus peitos infantis, se guardavam estragados sentimentos de cubiça! Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom melifluo e condescendente, palavras agradaveis, de muita e sincera amisade, por meio das quaes desejavam captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia, afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, que lhe atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe de um modo astuto:

—Olha, se mo deixas levar a comer ali adiante, dou-te esta carapuça nova...

O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, que era vermelha e, depois de calcular mentalmente as vantagens, condescendeu:

—Pois sim, dá cá a carapuça!