Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em grande distincção, festejando-o com alaridos, como um triumphador romano. Quando chegaram junto de uma poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito deveria comer. Para conseguirem isto, usaram de subterfugios infantis, escolhendo-lhe meticulosamente a melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca... Quando o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se da parte das creanças uma expressiva satisfação, olhando para o animal n’um silencio attencioso e meditativo; todos deante d’elle, agachados, contemplando-o com veneração!...

Estes e outros factos similhantes, fizeram com que o Tone fosse esquecendo gradualmente o seu estreito passado. Como tinha os mimos de Engracia e as lisonjas cavilosas dos seus companhiros, principiou a desenvolver-se-lhe uma vontade forte, desejos impertinentes, certa irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes com quem brincava, só distinguia o Zé do sachristão; porque este lhe consentia o tocar o sino pequeno, a bambom, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola já escrevia debuxado e o Tone, apesar de ter oito annos ainda nem sabia as lettras, disse-lhe o do sachristão:

—Ó coisa, quando é que tu vaes com a gente p’ro studo?

O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador:

—Eu não vou... Isso de studo não presta...

—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. Começas logo na carreira do A.

—O que é a carreira do A?!—indagou o da Engracia, com modo suspeitoso...

—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe que te merque a carta, que é muito linda. Tem um gallo... é muito linda. Depois vae ao studo, que andam lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, a gente brinca ás escondidas, joga o talo na eira... Vae meu asno que é bonito.

Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, que o levasse á escola. Engracia, para o não ouvir chorar, lavou-lhe logo a cara e conduziu-o a casa do mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O senhor Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, era tambem o melhor caçador de perdizes da redondeza! Andára em Braga a estudar para padre, com o fim de succeder na encommendação a seu tio; mas não conseguira presbiterar-se, por ter desfeitiado um velho conego na pessoa de uma creada massiça e de rosto oval... Depois d’isto, cortada a carreira, retirou-se definitivamente para a sua aldeia, deixando crescer grandes barbas, andando pelos montes e por entre os milhos ás perdizes e ás moças... De vez em quando, para se desaborrecer, dava aula de instrucção primaria, pois era o professor official!... Os seus discipulos temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com uma vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas bem puchadas, quando os suppunha delinquentes! Se emquanto o senhor professor andava ás perdizes, elles se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas, logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se pressurosamente para irem ao encontro do senhor Antoninho pedir-lhe a benção, do que elle os dispensava, passando de espingarda ao hombro, com um modo carregado e negativo.