—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo lá vou.

E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com um bondoso gesto de impaciencia:

—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle desgraçado, se nem sequer aprendeu a escrever o seu nome!...

Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente as suas idéas singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar espantadiço de uma gallinha, que fugia precipitadamente diante do focinho impetuoso de um cevado, tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o na largura do quinteiro, dizendo: ó diabo! Depois, com o seu olhar fixo, de pouca penetração, seguiu os movimentos dos porcos e das aves, pensando nas cousas insignificantes da sua vida baralhada!

O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho, levava na mão esquerda, a carta cuidadosamente dobrada. Todos a viam—era de fino papel azul, que rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As pessoas que o encontravam e que haviam recebido noticias dos filhos que tinham no Brazil, contavam-lhas miudamente. Aquelles a quem faltava carta, havia muitos annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar das felicidades que se deprehendiam d’aquelle venturoso papel!

O Manuel, como não encontrou na aula o senhor professor, desceu a um caminho para ir a casa da Engracia, com a intensão reservada de lhe ler a carta, acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre Beiral. Porém a mulher do Repolho não estava para o aturar e disse-lhe, com modo desabrido, que não queria receber conselhos e que «quem lhe encommendára o sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume a quem soubesse que lhe tinha morrido, n’esse dia, um touro que valia oito moedas! A perda irritara-a, o modo furtuito como acontecera essa desgraça indispozera-a para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas aggressivas de Engracia, respondeu, tambem melindrado:

—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas, com os seus touros!...

—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas! O seu filho, se tem muito, que se levante de noite da cama, para o comer!

E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta na cara.

O pae do brazileiro, que era um homem moderado e bem fallante, offendeu-se com isto, perdeu a cabeça e, ao retirar-se, ainda disse, voltado para a porta que se fechára, com uma voz alta e insolente: