—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom fueiro n’esse costado! Fosses minha mulher, que te não havia de faltar!
Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio fóra para lhe responder, e disse:
—Olhe, dê lá retolicas na sua casa! Alguem cá o chamou?! Ora o diabo do camello!
O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu o que se passára com a mulher do Repolho, acrescentando:
—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o meliante, ganha o céu! Era uma bem pregada! Elle anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de encontrar o seu homem!
O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe:
—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso, a farda, tem-n’a elle tão certa como dois e dois serem quatro...
E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu:
—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com a cabeça perdida com o brejeiro! Lá essas arenegações d’ella, não faças tu caso. Olha que perder, não faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça, não sabe o que diz.
A proposito, o Beiral narrou pelo miudo o caso do touro; porque o sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana, que presenceara tudo, que vira caír o demo do bicho da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho. Andava o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia que trazia o mafarrico no corpo; porque todo o santo dia o viram n’uma constante brincadeira, a escornar os outros, a dar corridas em vez de comer socegado! Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos com a cabeça estendida para diante, o rabo levantado em fórma de pau de bandeira, e a extremidade felpuda ondeando, como um pennacho! Depois, quando chegava a uma beira alta, estacava de repente a olhar para o longe muito tempo e, raspando no chão com um pé, continuava a comer muito de vagar, como se nada tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe novos caprichos, nova maluquice e corria para os bois a escornal-os, a provocal-os á lucta, á corrida, ao salto... O pastor bem lhe fallava, bem lhe berrava, mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não fazer caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em certos momentos a tomar interesse, a sorrir-se inconscientemente, quando o touro atravessava vistosamente, dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um rapasito de doze annos, com a cara manchada de nodoas de terra, o olho vivaz, vestido com uma camisa de tomentos muito suja, e umas calças remendadas. Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal, quando elle passou de uma vez com mais furia, com as pernas muito abertas, o dorso arqueado, a cauda horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de capricho... Ia na direcção da estrada, para o lado onde havia um muro alto! Corria n’uma vertigem, com um impeto louco e, o rapazito, esperava vel-o parar rapidamente, antes de chegar á extremidade! Porém não succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura do campo, saltou o muro e caiu em baixo, no fundo caminho pedregoso, dando um forte berro, ao mesmo tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas cavidades dos montes proximos. Ficou instantaneamente morto e a Engracia teve de o vender aos marchantes da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar carne a pataco o arratel!