Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia estava azuada e respondeu mal ao sachristão, que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os pedirem!...
O Beiral terminou conceituosamente:
—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada! Tu bem sabes que não faz bom cabello... Coitada!
III
Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já tinha esquecido completamente a aldeia risonha onde nascera e o rosto bom de sua irmã Quina que, por seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, com modos bruscos de feirante, com gestos insolentes e desordeiros de troquilha!... E tanto se habituou a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, não dormia em casa de seus paes adoptivos, metade dos dias de cada semana!... Andava pelas tabernas, de feira em feira, n’uma vida accidentada e bulhenta, sempre em companhia de outros feirantes, e da Marianna Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era uma mocetona alta, bem proporcionada, com certa vivacidade vaidosa e impudica!—uma creatura demoniaca, cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas pelos fracos da carne, pelos numerosos peccadores de todos os tempos!... Nos seios altos e avolumados, nos quadris largos, a que ella dava geitos lubricos, quando andava, para fazer assim ondular as saias de côres vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas das lendarias Magdalenas, antes do santo dia do venturoso arrependimento!... As feições rasgadas e energicas accentuavam-lhe o caracter dominador, que melhor se lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade! A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, com os quaes se entendia nos ajustes de gados, bebendo como elles por copos de meia canada, interessando-se nas suas vendas e trocas! O predominio que Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua amasia, todos os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o Fanfarra... o sabiam. Era ella que muitas vezes o impedia de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos, indusindo-o a que abusasse da affeição que Engracia e Bernardo lhe tinham, para lhes pilhar tudo em vida!...
—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, como lá a um rapaz da minha freguezia... Ateve-se ao que a madrinha lhe havia de deixar por morte, não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda da velha, roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em vez de lhe testar a elle os campos, como tinha promettido, metteu-se com a coruja, um tratante de um padreca, que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira vae deixar tudo lá a uma confraria e o asno ficou a chuchar no dedo!