O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a desgraça que lhe podia acontecer, estava a certa distancia, abrigado da chuva sob um velho carvalho ramudo, e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu nas suas mais insignificantes particularidades, fallando e gesticulando animadamente, como quem se tinha encontrado, mais ou menos envolvido n’este acontecimento obscuro da morte de um homem e de um pobre engeitado, verificado em circumstancias de um tão vigoroso effeito theatral! E por que os seus conterraneos, que o escutavam com os olhos abertos e muito pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio arma-as», o Joaquim exclamou com certa intimativa volteriana e vivamente resentido para com o morto Bernardo Repolho, que despresára os sensatos conselhos que elle lhe dera:
—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça d’elle que não regulou, é o que foi! Eu bem lh’o disse: «Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que era muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara de lorpa e de bom serás: «Ora, não ha de ter duvida, se Deus quizer...» Não tinha duvida, não tinha duvida, mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como um pato, sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!... O não tem duvida foi o que se viu!—rematou com modo triumphante, quasi de uma vingança satisfeita!
Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta, com os cabellos mal penteados, e que escutara attentamente a narrativa, tomou a deixa de Joaquim da Moita e interferiu com esta observação:
—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa do não tem duvida, é que pariu minha mãe!
Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu ao logar onde o caso succedera. Pelo caminho íam, conversando, em magotes. Algumas mulheres, relembravam com voz emphatica, como de quem dá um esclarecimento, que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo, caminhar para a morte, de pé, em cima do seu carro, com a aguilhada encostada ao hombro, na despreoccupação serena de um predistinado! O rapasito que tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga, todo encolhido, coberto com o seu corucho, berrando aos touros, que puchavam mal, encostando-se com teimosia um ao outro... Certas pessoas referiam insignificancias da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que lhe tinham ouvido, ainda mesmo n’aquelle dia, horas antes, quando passára em frente da porta da Anna Benta!... Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo triste «que estava um inverno de se pedir misericordia a Deus Nosso Senhor!...» e a Rosa Viuva, queria fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes palavras significavam que o homem de Engracia tivera uma voz de dentro do coração, que lhe predissera a morte!... E como alguns homens incredulos lhe retorquiram: «Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outra phrase saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo, no domingo precedente, ao saír da missa: «Isto não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim tinha succedido, não chegou a durar oito dias!... Por isso, todos vieram a concordar, que o pobre homem adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de baixo de uma barreira!...
Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido, chegaram as auctoridades, para se desenterrarem os cadaveres. Vinha o cirurgião, o José Pandega,—um rapaz de bigode e pêra como os soldados, que, farto de andar a estudar latim em Braga durante nove annos, arranjou depois um emprego no telegrapho, onde tambem se não deu bem, tomando por fim a resolução de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus conterraneos, pelos mesmos livros de veterenaria por onde, um velho frade, seu tio, medicamentára, durante muitos annos, as populações doentes d’aquellas freguezias!... Este ecclesiastico, a quem ninguem negou as faculdades do maior philosopho das redondezas, tinha, entre muitos, um notavel aphorismo, que eu aqui divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho acceitava pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo modo que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava voltando-se para os seus doentes—paparoca e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar que, se morreres, é só uma vez». Com o Pandega vinha o senhor Agostinho Manco, juiz eleito, um homem magro que fôra da bicha. Logo em seguida appareceu o regedor, conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás, um individuo vermelho, muito estupido, que só sabia emborrachar-se, como diziam os visinhos.
Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou a desenterrar os cadaveres! Com esse fim, quatro jornaleiros começaram a dar sacholadas auxiliados pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo, e que limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel, onde poderiam estar os defuntos. Todas as pessoas presentes, principalmente as mulheres e creanças, tomadas de uma curiosidade invejosa, empurravam-se reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam melhores, para presenciarem tudo que se passasse. Para isso iam collocar-se nos pontos mais eminentes, e algumas em logares perigosos!... O cirurgião Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada, que a filha da Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe de longe, com voz de auctoridade:
—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer o mesmo! Se se esbarronda essa terra ficas espapada!...
E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando a sua comprida pêra: