E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, exclamou de um modo reprehensivo:

—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas, que andas n’uma vida de home perdido. Tem vergonha n’essa cara! Faz uma confissão jaral, que vem ahi os missionarios, grande maroto!

O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu subir por elle acima uma forte ira contra a velha Vicencia. Porém, refreando-se, respondeu-lhe com uma indignação latente:

—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo de coruja! Vou-lhe lá pedir alguma cousa?! Se não fosse, não sei porque, se não fosse por causa d’aquelle que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), eu lh’o diria, seu grande diabo!...

Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, que deixando cair o feixe da herva no chão, principiou a gesticular, sem encontrar no momento as verdadeiras palavras indignadas, com que desejava aggredir o Fogueira! Como é que um homem, tão culpado como este maroto, que só andava pelas feiras em jogatina e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, com uma voz gritada e com os punhos ameaçadores, o increpou, com uma pedra na mão:

—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era de uma cadeia. Talvez me queiras bater, excomungado! Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na testa! Cuidas que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que não faz senão gastar o que aquelle bruto (alludia tambem ao morto que ia no esquife) andou por ahi a ganhar no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra ti! Mas deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor e o senhor padre Beiral te ensinarão! Já está prompta a farda que has de ter ás costas!... Eu vou dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender.

Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se no ar. O Fogueira só lhe percebeu que ia ser preso; mas a este tempo já tinha picado a egua pelo atalho acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de ninguem o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia da velha, cuja voz ainda lhe chegava aos ouvidos n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo do Bernardo Repolho considerou com a reflexão propria dos momentos responsaveis:

—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com um dia como esteve honte? Para que se foi aquelle maluco metter ao perigo?!—exclamava sem comprehender, voltado mentalmente para si mesmo!

E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a olhar fixamente para um muro musgoso, concluiu:

—É uma de mil diabos! Que grande bucha!