Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando o susteve a voz conhecida do João do Rego, que lhe appareceu de cima do muro do caminho:
—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera!
E aproximando-se acrescentou:
—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do barro e o rapaz tamem!
—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, mas sem commoção.
—Tamem. Pois tu não sabes nada?
—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle diabo que me metteu cá umas cousas por dentro, que...! Valha-a mil demonios!
O do Rego continuou esclarecendo:
—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. Mas honte foi ahi na freguezia o dia de juizo! Juntou-se povo, que povo!—o Capatrás, o Manco, o çurgião... o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque elles ficaram debaixo de um monte de barro, da altura d’este muro. Depois, quando os trouxeram para casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a tua velha fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. Fazes lá idéa! Era muita gente a querer agarrar n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder, por não a deixarem ir abraçar o seu home!... Ora tu bem sabes que a gente não a devia deixar, e mesmo o senhor padre Beiral e o Pandega disseram que não deixassem; porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem custado a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a minha mãe, que lá está, e outra gente não deixam. Quando a seguram, principia a chorar aos gritos, como se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... Se é verdade, temos que rir; porque ha de custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no corpo da gente é peior que maleitas. Safa!
O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com estas revelações. Principiou a apoderar-se d’elle um terror, um medo...—o medo de que a alma de seu pae adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua mãe Engracia! E com um ar scismatico, de homem abatido, puchava pela longa barba, arrepelando-a, e considerando-se infeliz!