—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o ha de elle ser, ainda que eu tenha de vender a camisa do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem mal, hão de cegar!...
Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de morte ao rapaz?! Engracia bem o sabia: O Antonio não era um cebola, não era nenhum maricas que se deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau de carvalho, e essa era a rasão por que lhe tinham tanta birra. Em qualquer ralhação, que a Engracia tivesse na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de homem perdido e sem religião, que o seu filho levava pelas feiras... N’essas occasiões, com uma intimativa raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o com a farda, com a tal farda que o senhor padre Beiral lhe havia de arranjar...
«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes Engracia indignada. Graças a Deus, ainda tinha algumas terras que vender e, acabadas as terras, ainda tinha cordões de ouro e a propria casa em que morava, que tambem valiam um bom par de moedas! Quem perdia com estas cousas eram os santos da igreja—Nossa Senhora do Carmo e Santo Antonio milagroso a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz se livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a farda, venderia esses campos para pagar a um sustituto. E por causa d’isto, tambem pensava em lhe doar todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, só para ter o regalo de ver a visinhança com uma cara de palmo e meio! Ao menos desenganava de uma vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles desejavam que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser seu filho; mas ella, que se tinha na conta de teimosa como uma burra, de cada vez estava mais resolvida a dar-lhe em vida quanto possuia! E realmente, n’um dia em que a Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre que lhe deitasse a absolvição, por querer desherdar Nossa Senhora e os santos em beneficio do grande meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha vindo» a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu para a villa, onde lhe fez a doação premeditada e onde, ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira ao brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao Antonio, para elle se ir livrar a Vianna e para continuar no negocio de burras, em que se via envolvido.
Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida do Fogueira, que conheciam as suas relações com a Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o Rio-Tinto e com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da doação incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam com riso de despeito e de consolação ao mesmo tempo:
—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como elle espatifa tudo emquanto o diabo esfrega um olho. Ai minha tola de Engracia! Cuidas que déstes na dos outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão engolidos n’um prompto!
Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, principiou elle a apparecer mais chibante e cheio de arrogancia, sempre na companhia de Marianna Ripa, que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de arreguilar o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, tudo roupinhas do melhor panno azul, chinelas com biqueiras de verniz pispontadas a retrós verde... o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto recheado de soberanos que mostrava todo basofia, pedia nas estalagens com voz arrogante e desdenhosa, postas de carne assada e copos do rascante, com que enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo d’ella, ao Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio Tinto encontrou meio de lhe impingir uma egua com seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte moedas, que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, pelas quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para o primeiro comprador! Era um animal vistoso, de pello luzidiu e fino, as orelhas espertas, as ventas resfolgantes, o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; mas era uma egua com pancada! Tinha um travado meudo, muito igual e firme; a cabeça, quando ía vertiginosamente na carreira, apresentava-a com altivez soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. Algumas pessoas chegavam a affirmar que era uma egua redondissimamente maluca!...
O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe:
—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; mas o que ella precisa é de bons quartos em cima! Olha que eu não sei se tu terás perna para a montar!
O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como era muito vaidoso, comprou-lh’a. Tinha-se na conta de um dos melhores montadores das feiras minhotas e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, por mais bravo, que elle não podesse amansar. Nunca encontrára, nem entre os marchantes, nem entre os troquilhas, homem a quem temesse n’um desafio de carreira. Portanto, apesar de lhe dizerem que era brava, o Fogueira quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons soberanos as vinte moedas... Muitos feirantes que lh’a viram levar ficaram dizendo com um riso velhaco, alludindo á maneira impensada como o Antonio gastava o dinheiro:
—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao lume. Parece um morgado.