O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual foi feita esta observação, defendeu o Fogueira n’estes termos:
—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro que elle gasta? Deixae o rapaz com as suas aquellas.
Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso determinado no papel que estava na porta da igreja, o Antonio foi á administração do concelho buscar a guia e partiu para Vianna, á speção. A Marianna Ripa foi com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. A rapariga ía toda secia, toda preparada, n’um espavento de arromba! Ella, como ouvira fallar da braveza da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu amante, que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a terminantemente a montar, observando-lhe que indo elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella subiu para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando as saias para ambos os lados. Por baixo, de entre as dobras do saiote vermelho do panno mais fino e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, e as suas pernas grossas, bem feitas, calçadas com meias de linha fina, viam-se-lhe impudicamente até acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e triumphante, quando olhava para as pessoas que a viam passar!
O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto, continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por dentro...
Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz:
—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias.
E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes. O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes, a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da carne da Marianna!... Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada:
—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada.
Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda, abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo Fogueira e continuaram o caminho.