A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado, apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado. Logo depois, um homem novo, cara de militar da reserva, tendo uma ponta de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da soga:

—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.

Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos, puchando com mais força.

Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a estrada antiga.

Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação; o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o chão, era triste e carregado, como deve ser o dos casseurs de pierre de Courbet.

Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio, íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira. Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram as que passavam por namoros do senhor Alberto—o apontador, aquelle que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia, a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre. Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto, n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos, a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou, mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada:

—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que ha de ir. Arre, ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero!

E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como os collegas que estavam na villa.

Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho, veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!» Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras, um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada as moças, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica! Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no Bracarense, timidamente, sobre a epigraphe de Inspirações do Lima!... N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros, onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam, apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros, descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja.

—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!