Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e, dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de lhe fallar, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente parelha de couces!
A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua, levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão, de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar, vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta e o rabo espalhado ao vento!...
Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo:
—Aquillo foi o dianho da mosca!...
Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, dominada por uma idéa infernal!...
Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio levava uma bravura excepcional!...
A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo estrondosamente na agua e fez cachap, levantando enorme poeira de espuma na amplitude do ar!
Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu campo, vendo isto, exclamou surprehendido:
—Oh! com mil diabos, que lá se spapou!
E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo, gritando: