—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu façe.
Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, ficando aniquilada, entorpecida, desorientada, entre a idéa feroz de uma vingança justa e o remorso, ou receio, de um crime que seria descoberto e punido! Não teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico bebeu a malga quasi de uma assentada, depois de ter comido a gallinha, com duas enfusas de vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no chão terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para ir levar o Senhor a uma moribunda. A amasia, tambem foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella, só, dentro d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma especie de spasmo e de embrutecimento cheio de medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando os ouvidos para nada escutar!
Que medonhas horas ali passou, sob a impressão accusadora de todos os factos que n’esse dia a interessaram. Horas depois, d’ali mesmo, ella ouviu o alarido da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico, quando, quatro homens de béca, o traziam pelos caminhos n’uma padiola, com a batina e o roquete todo rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos do envenenamento, quando ministrava á moribunda a Extrema Uncção, cercado do respeito submisso dos fieis ajoelhados em volta! Depois, principiou a sentir-se mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos oleos na mão, e, como as afflicções cresciam assustadoramente, suspendeu com intelligencia a applicação do sacramento! Nem escalda-pés, nem mesinhas receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o beneficio desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, os homens que tinham acompanhado o Santissimo o trouxeram n’uma padiola para casa e o poseram, sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, os vomitos, os gritos de dor que elle ainda teve, até ao momento de morrer, eram uma eterna condemnação, para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, que os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse comsigo uma navalha, durante aquelles instantes infernaes, tinha-a enterrado bem funda no proprio coração, para se punir! Tamanho era o seu arrependimento e a sua contricção, n’este momento unico, que desejou morrer ali mesmo de uma morte repentina, bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite, desapavorou-se mais, escutando as conversas vulgares do sachristão com os outros homens, que ficaram a vigiar o morto e conversavam, riam e escarravam alto, já muito bebados! Então saltou para os campos pelo postigo do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio Tinto, a quem contou tudo, para se accusar. O primo serenou-a dizendo-lhe:
—Mas elles não te viram, não, rapariga?
—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu soffocada.
—Então bem, não tenhas medo.
Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, fundadas em que foi encontrado no chão da cosinha do padre, um tamanco que lhe pertencia. Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que a livrou da justiça, jurando a pé junto, como um cavallo, que Marianna Ripa estivera todo o dia em casa d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa pela gratidão, e quando elle lhe pediu para não ir com o Fogueira prometteu-lh’o, promptificando-se ao mesmo tempo a saber ao certo o caminho que o troquilha seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, deve dizer-se: impoz como condição, pediu muito ao Fanfarra e ao Rio Tinto, que o não matassem, que não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um estouvado, um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom coração—rapaz de franquezas, nada era d’elle, tudo dava! O Rio Tinto serenou-a: não o queria matar—sómente desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de fazer peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz solteiro e sem filhos, tanto dinheiro, como o que lhe dera a mãe, da venda dos campos, e como o que lhes ganhára ao monte?! De mais a mais era um burro tão feliz, que até arranjára o sustituto p’rá tropa, por quinze moedas, quando, todo mundo, gente mais pobre, tinha dado vinte. É bem certo dizer-se que a agua corre sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se feliz a valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma de Deus que lhe tirasse a chelpa!...
A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, pelos esclarecimentos que obtivesse. Porém, insistiu, ainda uma vez, com afinco e honestidade, em que não o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, depois de lhe tirarem o que levasse no cinto!... O Fanfarra, porém com um rosto ingenuo e sério, observou:
—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... Quando lhe pedirem o milho que o ponha e que não bufe... Se assim quizer que vá com seiscentos diabos, que ninguem lhe quer a pelle para tambor.
O Rio Tinto observou sensatamente: