—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se ha de ir pôr com aquellas... Olhem que isto de estar assim de noite, no meio de um caminho só, onde nem todos os santos lhe podem valer se quizer pimponices... faz respeito.

E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, lhe iriam aos untos, sem mais aquellanças. O melhor era elle deixar-se de asneiras; porque lhe tinham uma sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao Fanfarra, quando não estava presente a Marianna Ripa, que com o Fogueira ainda desejava ajustar umas contas velhas e que talvez fosse esta a occasião... E com um sorriso medonho, de copo em punho, observou:

—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva uma tapona real.

—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro com intimativa.

Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo como procederiam. Não ignoravam que o Fogueira era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus argolados e com navalhas de ponta e mola, que sempre usaram trazer no bolso interior da jaqueta de briche, julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem conhecidos, cobririam as caras barbadas com lenços esboracados no sitio dos olhos e da bôca e fallariam na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho, depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo a calhar, e o Rio Tinto conhecia-o perfeitamente. Por isso elle mesmo é que determinou o sitio em que poderiam esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde havia uns carvalhos que, nas noites sem luar, tinham o volume incomensuravel das sombras phantasticas e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali pela meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio e a hora, concorriam para o effeito d’esta scena de romance theatral. Só faltava a capa, o sombréro e o bacamarte para ser um quadro de Goya!...

Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam de repente de entre os velhos troncos nodosos e, mandando fazer alto, diriam imponentemente com voz soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o desse por bem e logo, deixavam-n’o com os demonios; se quizesse fanfar tirar-lhe-íam o dinheiro á força e moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio Tinto com o seu rancor de mau homem:

—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe tenho, ponho-o molle como uma bosteira de gado! O bocado maior, não se ha de ver!